Nesta página
- O que é um trust (e o que é "investir em trust")
- Como a Lei 14.754 enxerga o trust
- Rendimentos durante a vida do instituidor
- Distribuição ao beneficiário e morte do instituidor
- Declaração no IRPF
- Tabela: o trust em cada momento
- E o trust nos EUA?
- Perguntas antes de criar ou manter um trust
- O que muda para quem tem patrimônio em mais de um país
- Como a Sofe ajuda
- Perguntas frequentes
- Fontes
O trust aparece em quase toda conversa sobre sucessão internacional e quase sempre cercado de mitos: que "tira os bens do nome", que "não paga imposto", que é coisa só de bilionário. Desde a Lei 14.754/2023, o Brasil tem regra própria e clara para o trust de residentes aqui. Este guia explica o que é um trust, como a lei brasileira enxerga cada fase e o que precisa ser declarado, com base no texto da lei consultado em 27 de outubro de 2026. Enquanto a página própria de trust não está no ar, o tema principal está na página da Lei 14.754/2023.
O que é um trust (e o que é "investir em trust")
A própria Lei 14.754/2023 define as figuras (art. 12):
- Trust: figura contratual regida por lei estrangeira que regula a relação entre instituidor, administrador e beneficiários sobre os bens indicados na escritura.
- Instituidor (settlor): pessoa física que destina bens seus à formação do trust.
- Administrador (trustee): pessoa física ou jurídica com dever fiduciário sobre os bens, que os mantém e administra conforme a escritura e a carta de desejos.
- Beneficiário: quem recebe do trustee os bens e seus frutos.
- Distribuição: qualquer ato que transfira ao beneficiário a posse, o usufruto ou a propriedade de bens do trust.
- Escritura do trust e carta de desejos: os documentos com as regras e as vontades do instituidor.
"Investir em trust", na prática, quer dizer colocar investimentos (ações, fundos, imóveis, participações) sob a administração de um trustee. O trust em si não é um investimento: é uma forma de deter e administrar bens.
Como a Lei 14.754 enxerga o trust
A regra central está no art. 10 da Lei 14.754/2023. Para fins tributários no Brasil:
- depois de criado o trust, os bens continuam do instituidor;
- passam ao beneficiário na distribuição ou na morte do instituidor, o que vier primeiro;
- essa passagem é tratada como transmissão gratuita: doação, se em vida, ou transmissão causa mortis, se por morte (§ 2º);
- a transmissão pode ser antecipada se o instituidor renunciar de forma irrevogável ao direito sobre parte do patrimônio (§ 1º).
Ou seja: chamar o trust de "irrevogável" no papel não basta para tirar os bens do instituidor perante o imposto de renda brasileiro. O que conta é a renúncia irrevogável ao direito sobre os bens.
Rendimentos durante a vida do instituidor
Os rendimentos e ganhos dos bens do trust são considerados do titular na data em que acontecem e são tributados pelas regras do IRPF que valem para ele (art. 10, § 3º). Na prática, enquanto o instituidor é o titular:
- rendimentos de aplicações financeiras no exterior pagam 15% no ajuste anual (arts. 2º e 3º);
- se o trust tem uma empresa controlada no exterior, ela é tratada como se fosse detida diretamente pelo titular, com as regras de controladas (art. 10, § 4º).
O instituidor ou o beneficiário deve pedir ao trustee os recursos e as informações para pagar o imposto (art. 10, § 5º). Se o trustee não responder, a obrigação tributária continua (art. 10, § 8º).
Distribuição ao beneficiário e morte do instituidor
Quando há distribuição em vida, o beneficiário passa a ser o titular daquilo que recebeu, e a transferência é tratada como doação. Com a morte do instituidor, o que ainda estiver no trust passa aos beneficiários como herança.
Doação e herança são o campo do ITCMD, imposto estadual. Desde a Emenda Constitucional 132/2023, ele deve ser progressivo pelo valor, e a Constituição remete à lei complementar a competência quando o doador mora fora ou quando o falecido tinha bens ou residência no exterior (art. 155, § 1º, III e VI); até essa lei, o art. 16 da EC 132/2023 define provisoriamente qual estado cobra. Como isso se aplica ao seu caso depende do estado e da situação do instituidor; é ponto para o advogado tributarista.
Declaração no IRPF
- Quem é obrigado: a Receita inclui entre as hipóteses de entrega do IRPF ter tido, no ano anterior, a titularidade de trust ou de contrato similar regido por lei estrangeira (Receita Federal, consultado em 27/10/2026).
- Como declarar: os bens do trust são declarados pelo titular, pelo custo de aquisição (art. 11). Quem declarava o trust como um bem único deve substituí-lo pelos bens que estão dentro dele, rateando o custo (art. 11, § 1º).
- Contratos parecidos: as mesmas regras valem para outros contratos regidos por lei estrangeira com características de trust que não sejam entidades controladas (art. 13).
A lei também exigiu que instituidores vivos, ou beneficiários que conhecessem o trust, alterassem a escritura ou a carta de desejos em até 180 dias da publicação, para que o trustee cumpra a lei de forma irrevogável (art. 10, § 6º).
Tabela: o trust em cada momento
| Momento | Titular para o IR brasileiro | Efeito | Artigo |
|---|---|---|---|
| Criação do trust | Instituidor | Bens seguem declarados pelo instituidor | Art. 10, I |
| Rendimentos enquanto não há distribuição | Instituidor | Tributados pelas regras do IRPF do instituidor (15% sobre aplicações no exterior) | Art. 10, § 3º |
| Renúncia irrevogável a parte dos bens | Beneficiário | Transmissão antecipada daquela parte | Art. 10, § 1º |
| Distribuição em vida | Beneficiário | Tratada como doação | Art. 10, II e § 2º |
| Morte do instituidor | Beneficiário | Tratada como transmissão causa mortis | Art. 10, II e § 2º |
| Controlada dentro do trust | Titular dos bens | Regras de entidades controladas | Art. 10, § 4º |
Fonte: Lei 14.754/2023, consultada em 27/10/2026.
E o trust nos EUA?
Para quem tem bens nos EUA, o trust também precisa conversar com o estate tax americano, que incide sobre bens situados nos EUA do não residente. As regras do trust para estate tax dependem do tipo de trust, de quem o controla e dos poderes retidos, e não há tratado de estate tax entre Brasil e EUA (IRS). Esse desenho é feito com attorney de estate planning. Veja a página de estate tax para brasileiros.
Perguntas antes de criar ou manter um trust
- Quem é o instituidor e quem são os beneficiários, e onde cada um tem residência fiscal?
- A escritura e a carta de desejos foram ajustadas à Lei 14.754/2023?
- O instituidor renunciou de forma irrevogável a algum bem? Se não, os bens seguem dele para o IR brasileiro.
- Há empresa controlada dentro do trust? Ela segue as regras de controladas.
- O trustee envia, a tempo, as informações e os recursos para pagar o imposto no Brasil?
- Quais bens do trust estão nos EUA, e qual o efeito no estate tax?
- Quanto custa manter o trustee por ano e quem paga?
O que muda para quem tem patrimônio em mais de um país
O trust costuma reunir bens de vários países num só documento, mas cada país continua aplicando a própria regra: o Brasil trata os bens como do instituidor até a distribuição; os EUA olham onde estão os bens; o país do trustee tem sua lei. Antes de criar ou manter um trust, a família precisa saber o efeito em cada lugar e o custo de manter o trustee. Compare com outras estruturas no post holding no Brasil ou offshore e veja o que acontece se alguém da família mudar de país em saída fiscal com patrimônio. Mais textos em tributário e sucessório.
Como a Sofe ajuda
A Sofe faz o mapa dos bens e das estruturas da família, coordena o trabalho entre o trustee, o advogado tributarista no Brasil e o attorney nos EUA, contratados diretamente por você, e organiza o calendário de declarações. A Sofe não é trustee e não presta serviço jurídico. Comece pela página da Lei 14.754/2023.
Perguntas frequentes
O que é trust?
É uma figura contratual regida por lei estrangeira que regula a relação entre o instituidor, o administrador (trustee) e os beneficiários sobre os bens indicados na escritura do trust, segundo a definição da Lei 14.754/2023.
O que é trustee?
É a pessoa física ou jurídica com dever fiduciário sobre os bens do trust, responsável por mantê-los e administrá-los conforme a escritura e, se houver, a carta de desejos.
Quem paga imposto sobre os rendimentos do trust?
O titular dos bens pela Lei 14.754/2023: o instituidor até a distribuição ou a morte dele, e depois o beneficiário. Os rendimentos seguem as regras do IRPF aplicáveis ao titular, como os 15% sobre aplicações no exterior.
Trust irrevogável tira os bens do instituidor?
Não automaticamente para o IR brasileiro. A transmissão ao beneficiário só é antecipada se o instituidor renunciar de forma irrevogável ao direito sobre parte do patrimônio do trust.
Quem tem trust precisa declarar o IRPF?
Sim. A Receita lista entre as hipóteses de obrigatoriedade ter tido titularidade de trust ou de contrato similar regido por lei estrangeira no ano anterior.
Quanto custa um trust?
Depende da jurisdição, do trustee e dos ativos. Constituição e manutenção são cobradas pelo trustee e pelos advogados, contratados diretamente pela família; a Sofe não publica estimativas sem cotação.
Fontes
- 1.Lei nº 14.754, de 12 de dezembro de 2023 (arts. 2º, 3º, 10, 11, 12 e 13)Planalto (Presidência da República). Consultado em 27/10/2026.
- 2.Quem deve declarar o Imposto de Renda (exercício 2026)Receita Federal do Brasil. Consultado em 27/10/2026.
- 3.Constituição Federal, art. 155, § 1º (ITCMD)Planalto (Presidência da República). Consultado em 27/10/2026.
- 4.Instructions for Form 706-NA (rev. 09/2025)IRS. Consultado em 27/10/2026.
- 5.Estate & gift tax treaties (international)IRS. Consultado em 27/10/2026.
Aviso: Conteúdo informativo sobre legislação vigente na data indicada. Não substitui a orientação de contador ou advogado habilitado, que deve analisar o seu caso concreto, a sua residência fiscal e as regras dos países envolvidos.



